segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Mudar de vida radicalmente é tendência perto dos 40 anos...

  • Ana Paula Caldas deixou um alto cargo numa multinacional para se transformar na DJ Ana John
    Ana Paula Caldas deixou um alto cargo numa multinacional para se transformar na DJ Ana John
As mudanças fazem parte da vida, do processo evolutivo. Mas muita gente tem problemas em efetuar transformações radicais em suas rotinas, especialmente na carreira, por comodismo ou medo, enquanto outras fazem a transição com naturalidade, sem grandes dramas. Para estas, a felicidade e a qualidade de vida vêm em primeiro lugar.
A psicóloga organizacional Rosana Bueno,da RB Consultoria, explica que há uma tendência apontando para mudanças de carreira atualmente e justamente quando as pessoas se encontram próximas à quarta década de vida. “Como vamos viver mais e não paramos de trabalhar depois da aposentadoria, fala-se até em terceira carreira. Por isso as pessoas buscam novos desafios”, diz ela. Outro motivo, segundo a psicóloga Anette Lewin, é que depois de 20 anos, muita gente se cansa de realizar o mesmo trabalho. “Nos ambientes corporativos, a ilusão de chegar à diretoria e à presidência com o tempo acaba ou diminui. Por outro lado, parece menos comum um médico ou profissional que trabalha com o bem-estar humano querer mudar de carreira”.

Mudança de vida

Foto 1 de 46 - A publicitária e bailarina Ana Paula Caldas deixou um alto cargo no departamento de marketing numa multinacional para dedicar-se exclusivamente ao seu hobby de DJ. Roberto Setton/UOL
Com a situação econômica do país mais estável é mais fácil tentar outros rumos. E o peso que se dá à carreira e ao status social também conta. “Quem tem o objetivo máximo de ganhar dinheiro, suporta melhor um emprego que o desagrada, mas paga bem”, diz Anette.
O ideal, segundo Anette, é tentar conciliar as duas ocupações, como ela mesma fez. Anos atrás Anette resolveu realizar seu sonho de juventude e virar atriz. “Me inscrevi num curso e comecei a trabalhar. Fiz comerciais e peças profissionais.”
Mudança programada
Para a psicóloga Adriana Takahashi, quando o trabalho não traz mais satisfação e passa a se tornar um martírio, é bom repensar e verificar se vale realmente a pena permanecer dessa forma, desgastando-se e se prejudicando mental e fisicamente. “Geralmente é neste momento que se avalia se vale correr o risco de fazer o que se gosta para se sentir mais pleno e satisfeito. Mas é importante ponderar os ganhos e as perdas”, diz ela. E se preparar. “Qualquer pessoa pode mudar de carreira, mas é preciso estar consciente de sua decisão e planejar, o que pode levar tempo. Verifique a viabilidade da mudança, considere que no início será difícil, já que provavelmente ganhará menos. Neste processo vale fazer pesquisas, conversar com familiares, amigos e profissionais da área em que pretende atuar”, explica Adriana.
Case de sucesso
Ricardo Alcerito Roque, 36 anos, em 2009 trocou o salário de executivo em uma multinacional pelo sonho de ter sua empresa e horários flexíveis para poder ver a filha crescer. “Depois de 14 anos trabalhando em ambiente corporativo altamente competitivo, que eu nunca gostei, a intolerância cresceu e pedi demissão”, diz ele.
  • Roberto Setton/UOL Ricardo Alcerito Roque trocou o salário de executivo para fabricar biscoitos holandeses
A ideia do novo negócio já estava plantada. Ricardo queria fazer, aqui no Brasil, um biscoito holandês, o stroopwafel. Quando contava aos amigos, eles reagiam espantados. “Você largou tudo pra fazer bolacha?”, lembra rindo. Até que um deles virou seu sócio na empresa Sobremesas do Mundo. “Passei 40 dias na Holanda aprendendo a fabricar o doce. Voltei com uma máquina e iniciei a produção”.
Hoje ele também faz uma rosquinha da África do Sul, koeksusters e em breve lançará sobremesas típicas da Índia, México e Nova Zelândia. “Vamos dar a volta ao mundo”, diz Ricardo, que vende seu produto diretamente para as empresas do ramo e cafeterias.
Diferencial
A mudança de Ricardo foi programada ao longo dos anos, com investimentos que permitiram a abertura do negócio. Mesmo assim, para quem olha de fora parece coisa de louco, avalia Rosana. “Muita gente associa mudança com fracasso, não imagina que a pessoa está feliz”, explica.
A psicóloga Anette sofreu intolerância quando resolveu dar vazão ao seu lado artístico. “As psicólogas que trabalhavam no meu consultório achavam que eu tinha ficado maluca e me agrediram verbalmente e com atitudes grosseiras. Os atores do primeiro grupo que participei me diziam que aquele não era o meu lugar. Conciliar é possível, mas é preciso lidar com a pressão”.
A publicitária e bailarina Ana Paula Caldas, 39 anos, que há um ano e meio também deixou um alto cargo no departamento de marketing numa multinacional para dedicar-se exclusivamente ao seu hobby de DJ, conviveu especialmente com a desconfiança da família. “Este tipo de transformação assusta. É difícil entender como alguém super bem sucedido muda de carreira. Minha mãe ficou muito preocupada, mas hoje já compreendeu que estou muito mais feliz e realizada, pois além de trabalhar à noite, horário que mais gosto, posso acompanhar meus dois filhos crescerem. E inclusive ganhando mais do que antes”, diz Ana John, seu nome artístico.
O trunfo de Ana foi buscar o seu diferencial, tocando jazz. “Percebi que havia uma demanda para o mercado de luxo e investi nele. Hoje abro eventos como a Flip (Festa Literária de Paraty) e a Bienal de Arte. E no final do ano fechei o show do Caetano Veloso com a Maria Gadú, entre outros”, comemora.
Além disso, produz e dirige o pocket show Hollywood Monday, que acontece no restaurante Trindade às segundas-feiras, em São Paulo. Um espetáculo de jazz com canções clássicas do cinema, que tem a colaboração do crítico Rubens Ewald Filho. Ana também dá cursos de marketing para músicos e DJs, está abrindo uma empresa de agenciamento de artistas e planeja ter uma banda no futuro próximo.
Hora certa
Às vezes a mudança não é programada com antecedência. Foi o caso da nutricionista Débora Leite dos Reis Moreno, 38 anos. Ela trabalhou durante 13 anos em hospitais, mas o último emprego foi tão estressante que resultou no pedido de demissão. “Foi então que meu marido sugeriu que eu fizesse o curso de maquiagem que eu sempre quis e nunca tinha tido tempo.” Lá ela conheceu o maquiador Dario Marinho, com quem começou a trabalhar como sua assistente. Um ano e meio depois, Débora trabalha em dois salões, atende clientes particulares, faz eventos e participações em programas globais. “Nunca fiz nada na vida que gostasse tanto e sentisse tanto prazer”, diz ela, feliz, feliz.
  • Roberto Setton/UOL Débora Leite dos Reis Moreno deixou a nutrição para fazer o que sempre quis: maquiagem
No seu caso, ela contou com o apoio emocional e financeiro do maridão, que segurou as pontas enquanto ela fazia estágios sem ganhar um tostão. “Fui a muitos eventos só para aprender e fazer contatos.” Valeu a pena. Hoje ela até dá aulas sobre sua técnica.
Medo
Um pouquinho de frio na barriga no início é normal. “Claro que eu tinha receio de deixar o salário filé mignon, mas não me arrependo de maneira alguma”, diz Ricardo.
Para Débora, o problema foi o ganho menor. “No primeiro mês fiquei desesperada porque estava recebendo muito menos, mas no segundo consegui sete trabalhos, que aumentaram minha confiança”, conta a maquiadora.
Se você está pensando em seguir o mesmo caminho, avalie se está disposto a mudar seu padrão de vida, pelo menos por um tempo. “Também é importante não ser muito medroso, ter boa autoestima e sentir prazer em aprender algo novo. Lembre-se de que você sairá do cargo de expert para o de iniciante”, lembra Anette.
Adriana afirma ainda que toda mudança, mesmo sendo boa, demanda muita energia e é desgastante. “Mas o ganho com a troca, quando feita com seriedade e consciência, certamente compensa.”

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